...

Baterias para reduzir o horário de ponta: peak shaving para empresas

Veja como baterias reduzem o custo do horário de ponta em empresas, com tarifas reais da Cemig, exemplo de economia e dimensionamento do sistema.
Peak shaving com baterias: como reduzir o horário de ponta
Navegue pelo artigo

Empresas que pagam tarifa diferenciada por horário podem usar baterias para reduzir o custo do horário de ponta. A lógica é simples: a bateria é carregada com energia solar ou com energia da rede fora da ponta, quando ela é mais barata, e descarregada nas três horas de ponta, quando o kWh é muito mais caro. Na tarifa A4 Verde da Cemig, por exemplo, o consumo na ponta custa cerca de cinco vezes mais do que fora dela. Para empresas na tarifa Azul, a bateria também reduz a demanda contratada na ponta, que é o item mais caro da fatura nessa modalidade.

Este artigo explica como o horário de ponta pesa na conta de empresas do mercado cativo, a diferença entre deslocar consumo e cortar picos de demanda, um exemplo de economia com tarifas reais e como dimensionar o sistema.

O que é o horário de ponta e por que ele custa tanto

O horário de ponta é um período de três horas consecutivas, definido por cada distribuidora, em que a demanda por energia no sistema elétrico é maior. Na área da Cemig, ele vai das 17h às 20h, nos dias úteis. Sábados, domingos e feriados nacionais não têm horário de ponta.

Para incentivar a redução do consumo nesse período, as distribuidoras cobram tarifas bem mais altas na ponta para os consumidores com tarifação horária. É como abastecer o carro em um posto que cobra cinco vezes mais das 17h às 20h: quem precisa rodar nesse horário pode encher um galão mais cedo, a preço normal. A bateria é esse galão.

Quem paga tarifa diferenciada no horário de ponta

Empresas do Grupo A

Empresas atendidas em média ou alta tensão, como indústrias, supermercados, hospitais, shoppings e grandes comércios, fazem parte do Grupo A e são faturadas em modalidades horárias. As duas mais comuns são:

  • Tarifa Verde: uma única tarifa de demanda contratada e tarifas de consumo muito diferentes entre ponta e fora da ponta. Disponível para os subgrupos A3a, A4 e AS.
  • Tarifa Azul: demanda contratada e consumo diferenciados entre ponta e fora da ponta. Disponível para todos os subgrupos do Grupo A.

Empresas do Grupo B na tarifa branca

Comércios, escritórios e pequenas empresas atendidos em baixa tensão fazem parte do Grupo B e, em geral, pagam a tarifa convencional, com o mesmo preço o dia todo. Eles podem optar pela tarifa branca, que tem três postos: ponta, intermediário e fora da ponta. Sem bateria, a tarifa branca raramente compensa para quem consome no fim da tarde. Com bateria, ela pode passar a fazer sentido, porque o consumo da ponta deixa de vir da rede.

Quanto custa a ponta: as tarifas reais da Cemig

A tabela abaixo reúne algumas tarifas vigentes da Cemig em outubro de 2026, antes de impostos e com bandeira verde, conforme publicadas pela distribuidora:

Tarifa Cemig (antes de impostos, bandeira verde)Na pontaFora da ponta
A4 Verde: consumoR$ 2,38718 por kWhR$ 0,48077 por kWh
A4 Azul: consumoR$ 0,66001 por kWhR$ 0,48077 por kWh
A4 Azul: demanda contratadaR$ 71,13 por kWR$ 23,77 por kW
B3 Tarifa Branca (comércio e serviços): consumoR$ 1,78503 por kWhR$ 0,75852 por kWh

Os números mostram por que o horário de ponta pesa tanto. Na tarifa A4 Verde, cada kWh consumido entre 17h e 20h custa quase cinco vezes o kWh consumido fora da ponta. Na tarifa Azul, o consumo na ponta é só um pouco mais caro, mas a demanda contratada na ponta custa três vezes a demanda fora da ponta. Na tarifa branca do Grupo B, a ponta custa mais que o dobro do horário fora da ponta. Sobre todos esses valores ainda incidem os tributos, como ICMS, PIS e Cofins.

Deslocar consumo ou cortar picos: duas estratégias diferentes

O termo peak shaving costuma ser usado para qualquer uso de baterias no horário de ponta, mas existem duas estratégias distintas, e cada uma combina melhor com uma modalidade tarifária.

Deslocamento de consumo

Na tarifa Verde e na tarifa branca, o que pesa é a energia consumida na ponta, em kWh. A estratégia é deslocar esse consumo: a bateria armazena energia fora da ponta e a entrega entre 17h e 20h, reduzindo os kWh que a empresa compra da rede no horário mais caro. Quanto mais energia deslocada, maior a economia.

Corte de picos de demanda

Na tarifa Azul, o item mais caro da ponta é a demanda contratada, em kW. A estratégia aqui é cortar os picos: a bateria entra sempre que a potência solicitada da rede se aproxima de um limite definido, mantendo a demanda abaixo desse valor. Isso permite contratar uma demanda menor na ponta e evita a cobrança de ultrapassagem, que na Cemig custa o dobro da tarifa de demanda.

Na prática, um mesmo sistema pode combinar as duas estratégias, e a escolha entre as tarifas Verde e Azul pode mudar depois da instalação da bateria. Essa análise faz parte do projeto.

Por que só a energia solar não resolve o horário de ponta

A geração solar acontece principalmente entre o meio da manhã e o meio da tarde. Às 17h, quando começa a ponta na área da Cemig, a geração já está baixa, e às 18h praticamente acabou. Ou seja, o sistema solar gera energia justamente no horário em que ela é mais barata, e não gera no horário em que ela é mais cara.

Na geração distribuída, os créditos da energia injetada na rede ao longo do dia podem ser usados para compensar consumo em outros horários, mas a compensação entre postos tarifários diferentes segue regras próprias, que reduzem o valor do crédito quando ele é usado para abater o consumo na ponta. A bateria resolve o problema na origem: em vez de mandar a energia do meio-dia para a rede, ela a guarda para o fim da tarde.

Empresas que estão no Mercado Livre de Energia têm outra lógica de contratação, e para elas a combinação entre geração solar, baterias e gestão de energia é tratada no artigo sobre Grid Zero para indústrias no Mercado Livre.

Exemplo de economia com a tarifa A4 Verde

Considere uma empresa na tarifa A4 Verde da Cemig que consome, em média, 30 kW durante o horário de ponta. Com uma bateria dimensionada para assumir essa carga nas três horas de ponta, o cálculo fica assim:

Exemplo ilustrativo: empresa A4 VerdeValor
Carga deslocada para a bateria no horário de ponta30 kW durante 3 horas
Energia deslocada por dia útil90 kWh
Energia deslocada por mês (22 dias úteis)1.980 kWh
Economia líquida por kWh deslocadocerca de R$ 1,85
Economia estimada por mês, antes de impostoscerca de R$ 3.670

A economia líquida por kWh considera que a energia guardada na bateria deixa de ser usada fora da ponta (R$ 0,48077) e que cerca de 10% se perde no processo de carga e descarga. Mesmo assim, cada kWh deslocado economiza cerca de R$ 1,85 antes de impostos. Com os tributos, a economia em reais na fatura é ainda maior.

Esse exemplo é ilustrativo. A economia real depende da curva de carga da empresa, da modalidade tarifária, dos tributos aplicáveis e do investimento no sistema. É a comparação entre a economia mensal e esse investimento que define se o projeto se paga e em quanto tempo.

Como dimensionar a bateria para o horário de ponta

O dimensionamento parte de duas perguntas, que correspondem às duas grandezas de uma bateria:

  • Quanta potência a empresa consome durante a ponta? Esse número, em kW, define a potência que o inversor e a bateria precisam entregar.
  • Por quanto tempo? Na área da Cemig, são 3 horas. A potência multiplicada pelo tempo define a energia necessária, em kWh.

No exemplo acima, 30 kW durante 3 horas representam 90 kWh entregues por dia útil. Somando as perdas de conversão e respeitando a profundidade de descarga da bateria, o banco precisa de pouco mais de 110 kWh de capacidade nominal, antes da margem de segurança. O inversor precisa entregar pelo menos 30 kW de forma contínua.

A informação mais valiosa para esse cálculo é a curva de carga da empresa, que mostra o consumo ao longo do dia, de 15 em 15 minutos. Empresas do Grupo A podem solicitar esses dados de medição à distribuidora. Sem a curva de carga, o dimensionamento vira estimativa, e o risco de errar o tamanho do banco aumenta.

A bateria carrega com sol ou com a rede?

Com os dois. O cenário ideal é carregar a bateria com a energia solar gerada durante o dia, que de outra forma seria consumida no horário mais barato ou injetada na rede. Mas, mesmo sem geração solar suficiente, carregar a bateria com energia da rede fora da ponta e descarregá-la na ponta já gera economia, porque a diferença entre as tarifas é muito maior do que as perdas de conversão.

Quem decide quando carregar e quando descarregar é o inversor híbrido, programado com os horários da distribuidora e com os limites de demanda definidos no projeto. Entenda como o inversor híbrido gerencia a energia ao longo do dia para ver como essa programação funciona.

Uma bateria, dois benefícios: economia na ponta e backup

Uma bateria instalada para o horário de ponta também pode proteger a empresa em quedas de energia. Basta reservar uma parte da capacidade para backup e configurar o inversor para assumir as cargas prioritárias quando a rede cair. O mesmo investimento passa a gerar economia todos os dias úteis e segurança energética quando a energia falta.

Esse duplo benefício pesa especialmente em negócios que operam no fim da tarde e à noite. Em restaurantes, por exemplo, o horário de ponta coincide com a preparação e o início do jantar, e a refrigeração não pode parar. O artigo sobre backup com baterias para restaurantes e bares detalha esse tipo de operação.

Quando o peak shaving faz sentido

  • A empresa está no Grupo A, na tarifa Verde, e tem consumo relevante entre 17h e 20h.
  • A empresa está na tarifa Azul e tem picos de demanda na ponta que definem a demanda contratada ou geram ultrapassagem.
  • A empresa já tem ou pretende instalar geração solar e quer aproveitar a energia do meio-dia no fim da tarde.
  • A empresa também precisa de backup para cargas críticas, o que aumenta o valor do investimento.

O peak shaving faz menos sentido quando a empresa praticamente não opera no horário de ponta, quando o consumo na ponta é pequeno em relação ao total ou quando está no Grupo B na tarifa convencional sem perfil para a tarifa branca.

Perguntas frequentes

Qual é o horário de ponta da Cemig?

Na área de concessão da Cemig, o horário de ponta vai das 17h às 20h, de segunda a sexta-feira. Sábados, domingos e feriados nacionais não têm horário de ponta. Outras distribuidoras definem horários próprios, sempre com três horas consecutivas.

Quanto uma empresa pode economizar com bateria no horário de ponta?

Depende da modalidade tarifária e do consumo na ponta. Na tarifa A4 Verde da Cemig, cada kWh deslocado da ponta para a bateria economiza cerca de R$ 1,85 antes de impostos, já descontadas as perdas. Uma empresa que desloca 30 kW durante as três horas de ponta economizaria cerca de R$ 3.670 por mês antes de impostos.

Peak shaving funciona para empresas do Grupo B?

Pode funcionar para empresas que optarem pela tarifa branca, em que a ponta custa mais que o dobro do horário fora da ponta. Na tarifa convencional, com o mesmo preço o dia todo, não há diferença tarifária a explorar, e a bateria se justifica principalmente pelo backup.

A bateria precisa de energia solar para fazer peak shaving?

Não necessariamente. A bateria pode ser carregada com energia da rede fora da ponta e descarregada na ponta. A combinação com energia solar, porém, melhora o resultado, porque aproveita a geração do meio-dia, que de outra forma seria consumida no horário mais barato ou injetada na rede.

Peak shaving desgasta a bateria mais rápido?

O peak shaving usa a bateria em um ciclo por dia útil, o que representa cerca de 250 ciclos por ano. Baterias de lítio ferro fosfato (LiFePO4) suportam milhares de ciclos, o que é compatível com esse uso por muitos anos. O desgaste deve entrar no cálculo de retorno do investimento, mas não inviabiliza a estratégia.

Conclusão

Então, baterias valem a pena para reduzir o custo do horário de ponta? Para empresas com tarifação horária e consumo relevante entre 17h e 20h, sim, a diferença de preço entre ponta e fora da ponta cria uma economia diária que se repete todos os dias úteis. Na tarifa Verde, o ganho vem do consumo deslocado. Na tarifa Azul, vem da demanda reduzida. E, com a mesma bateria, a empresa ainda ganha proteção contra quedas de energia. Para conhecer as configurações possíveis, o guia sobre sistemas híbridos de energia solar explica como solar, rede e baterias trabalham juntos. A Sunus Sistemas Fotovoltaicos projeta sistemas híbridos com armazenamento em baterias a partir da curva de carga e da modalidade tarifária de cada empresa. Fale com a equipe da Sunus para avaliar o potencial de economia no seu horário de ponta.

Picture of Escrito por Frederico Salles

Escrito por Frederico Salles

Frederico Salles é engenheiro eletricista, diretor e fundador da Sunus. Tem mais de 20 anos em elétrica, automação e gestão de grandes projetos, com passagens como sócio na IHM Engenharia e líder de elétrica/automação na Vallourec. Hoje conduz projetos fotovoltaicos de alta performance e segurança energética na Sunus, empresa especializada energia solar em Belo Horizonte - MG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seraphinite AcceleratorOptimized by Seraphinite Accelerator
Turns on site high speed to be attractive for people and search engines.